|
|
O
BICHO DO MATO Zé
Luiz deixa Banerj pelas contas do Tribunal . Pode
ser que uma cadeira de conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, pacata e
vitalícia, lhe pareça mais confortável, mas, sem dúvida esta foi a
primeira semana da vida do banqueiro José Luiz de Magalhães Lins em que ele
saiu do mais para o menos. Era presidente do poderoso Banco do Estado do Rio de
Janeiro (Banerj) e foi para o tribunal de plenário composto por luminares
munícipes ou políticos sem voto, Magalhães Lins, ou "Zé Luiz",
como é conhecido desde o fim dos anos 50, quando revolucionou a ideologia dos
cadastros bancários emprestando dinheiro a intelectuais e jornalistas que o
procuravam no Banco Nacional, é, há muito tempo, uma das figuras mais
poderosas da comunidade financeira e política do Rio e, ao mesmo tempo, uma das
mais discretas. Aos
51 anos, depois de ser o mais importante diretor do Nacional, onde começou como
funcionário humilde e sobrinho do dono, José de Magalhães Pinto, ele criou
seu próprio banco, presidiu a Light e, repentinamente, saiu dos bastidores da
política indo para o Banerj no início do governo do seu amigo Chagas Freitas.
Magro, com o cabelo cortado rente, ele nunca é visto em festas, apesar de ser
casado com uma das mulheres mais elegantes do Rio, Maria do Carmo née Nabuco,
para quem Manuel Bandeira fez um verso. Raramente sai de casa da zona sul
cercada pela frente por policiais humanos e pelos fundos por mastins famintos.
Quando sai, começa a exibir sua excêntrica simplicidade. Só usa terno preto
com gravata preta e camisa branca. Só bebe gim Tanckeray, de preferência da
garrafinha que carrega as festas, prevenindo-se contra bebidas estranhas. Esse
personagem, que mistura a discrição das famílias mineiras à astúcia da
política pesada, é acima de tudo um precavido. Perfuma-se com colônia Givechy
e, como a Maison Givenchy pode quebrar, tem centenas de garrafas em casa. Estava
em Paris em maio de 1968 e como sempre levava um amigo que o ajudasse a sair do
cerco idiomático em que o uso exclusivo do português o atirou. Tinha o escritor
Otto Lara Resende no mesmo hotel quando, depois de ver os distúrbios
universitários que começavam, chamou-o: "Amanhã vamos cedo encher o
tanque". "Por quê?", perguntava Otto. "Porque vai faltar
gasolina". De fato, pouco depois de
terem enchido o tanque, fecharam os postos. No dia seguinte, Zé Luiz percebeu
que era a hora de sacar todo o dinheiro do banco. Sacou de manhã e os bancos
fecharam à tarde. Depois, com algumas dezenas de milhares de dólares nos
bolsos, teve um dos maiores medos de sua vida quando, no meio de um espetáculo
do Lido, apareceu um mágico capaz de fazer sair objetos das roupas da platéia. Até
o dia 1º de abril de 1964, ele viveu cercado por alguma publicidade. Era o
protetor do jogador Garrincha e uma espécie de mecenas do cinema novo, ao mesmo
tempo colaborava na organização da campanha do plebiscito que daria poderes
presidenciais a João Goulart. Para tirar esses poderes porém há testemunhos
de que, sem sair do Rio, nas horas que antecederam à Revolução, seu carro
rodou por centenas de quilômetros. Vitorioso, recolheu-se e dedicou-se
sobretudo a construir uma reputação de indiscutível competência. Esquecida a
fase em que o chamavam de "banqueiro do povo", tornou-se um
discretíssimo articulador. Por sua casa, na qual guardava uma das melhores
coleções de pintura e arte sacra brasileiras, estiveram centenas de políticos
e dezenas de generais, entre os quais o próprio João Baptista Figueiredo, tudo
sem uma só linha dos jornais. "Eu
não passo de um bicho do mato", costuma repetir, orgulhando-se de jamais
ter dito algo além disso para que se publicasse. Só esta semana ele concedeu
novas frases. Disse que foi atraído para o cinema novo por Otto Lara Resende e
explicou seu interesse pela função de conselheiro do Tribunal de Contas:
"Vou ter mais tempo para ler e o trabalho não é muito diferente do que
fiz até agora, pois não deixa de ter uma função ligada à economia". Na
realidade, em comum com o Banerj, só há a palavra contas. Num, são as contas
dos gastos. No outro, as contas
depósitos. De fato, em menos de dois anos, ele aumentou em 130% as contas
voluntárias do Banerj. Por ágil, o banco está na zona de risco em suas
relações com a política oficial, pois em quatro meses ele expandiu os
empréstimos em 35%, quando o ministro Delfim Netto quer que o limite para o ano
seja 45%. Ao
contrário do que se supôs, porém, Magalhães Lins não teve divergências
com Delfim e sua saída está mais relacionada à queda do empresário Israel Klabin da Prefeitura do
Rio e à sua recolocação no Banerj. Além disso, especular uma eventual derrota
de Magalhães Lins seria exagero. Arquimilionário, não precisa do salário.
Bem relacionado, não precisa de título. Quem sabe, se um dia as eleições
voltarem a ser indiretas e seu amigo Chagas Freitas precisar de um nome para sua
sucessão, o país tenha chegado a uma situação em que ele seja candidato com
os amigos ideais aos quais chama, sempre de "meu querido".
|
|