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JOSÉ LUIZ - MINEIRO, MECENAS E
ANTIBUROCRATA José Luiz de
Magalhães Lins vai fazer em abril 50 anos de idade, o que quer dizer que
nasceu antes da reforma ortográfica, pela qual Luís passou a se escrever com
s. Nasceu em Arcos, perto de Formiga, como ele próprio explica aos que não
sabem onde é Arcos, nem muito menos onde fica Formiga, que não chega a ser
ponto de referência. Mas ambas as cidades, Arcos e Formiga, eram há meio
século duas cidadezinhas perdidas no Oeste de Minas. Isoladas e montanhosas,
como todas as cidades daquela época, em particular as do Oeste de Minas, que,
segundo João Guimarães Rosa, é, de todas as tristezas, a zona mais triste de
Minas. O pai de José Luiz, Edmundo Lins Júnior, andava por essa época
numa tentativa de fixar-se no interior, com estabelecimento próprio. O
estabelecimento era uma serraria, aventura que durou pouco e levou José Luiz
para o Rio, onde o menino foi criado, desde os 2 anos de idade. Apesar
de criado no Rio, no Engenho Novo, José Luiz conservou-se mineiro dos
pés à cabeça. Sua voz é grave, quase rouca, o que o torna macia e afetuosa
em qualquer conversa banal. No Rio, José Luiz fez o ginásio e aqui
prestou serviço militar. Antes disso, passou 6 meses em Minas, trabalhando na
Secretaria de Finanças (hoje da Fazenda). Essa passagem por Belo Horizonte
reciclou a mineiridade de José Luiz, que até hoje tem muitas
recordações daquele tempo que em parte está retratado no recente livro de sua
prima Sonia Lins, "Baticum", onde ela compara José Luiz ao
mangrove e explica que "o mangrove é um emaranhado de raízes e troncos
que à primeira vista parece indecifrável. Examinando de maneira mais próxima,
vê-se que ele evolui de sua própria estrutura e flutua em águas rasas sobre
trançado de raízes e ramos descendentes. Este é o solo que ele próprio
fabrica para poder ampliar-se". De
volta ao Rio, José Luiz trabalhou como fiscal de barreira, o que obrigava a ir
diariamente, mal raiava o dia, até a antiga Rio-Petrópolis, em Caxias. Mas o
serviço público não era ainda o destino de José Luiz. Ingressou,
então, na vida bancária, no Banco Nacional de Minas Gerias, como qualquer anônimo. Foi escriturário e
datilógrafo. Com
o crescimento do Banco, José Luiz foi-se fazendo notar e galgando
naturalmente os postos, até a gerência. Em seguida, tornou-se assessor da
Diretoria. Foi ali que José Luiz começou a conhecer e a tornar-se conhecido de
muitas futuras relações cariocas. Em pouco se distinguia no Banco, de que veio
a ser diretor e grande acionista, e, sem deixá-lo, passou pela direção da
Cia. Atlântica de Seguros. Fundou a Nacional Seguros. Como
banqueiro, José Luiz de Magalhães Lins notabilizou-se por uma série de
iniciativas inovadoras, sobretudo no campo do estímulo a atividades artísticas
e culturais. Financiou vários filmes brasileiros, assistiu financeiramente
editoras, criou o sistema de vendas a prazo de obras de arte (foi sócio de
José Carvalho na "Petite Galerie", que revolucionou o mercado das
artes plásticas). Sempre esquivo e arredio à publicidade, José Luiz tornou-se
todavia extremamente conhecido e até mesmo popular, já que sua presença
estava por toda a parte - até no futebol, quando foi conselheiro de Garrincha
(cujo filme financiou). Homem
metódico, de hábitos frugais. Reservado e obstinado na perseguição nos
objetivos, José Luiz é fisicamente o mineiro padrão, a crer nas definições
de mineiro que datam de Saint Hilaire. Magro, seco, alto, reservado, veste-se
sempre de preto. Detesta sair de sua rotina, que começa muito cedo, com a
leitura dos jornais. Vai cedo para o escritório, na Atlântica-Boavista. É
diretor do Conselho de Administração do Grupo Atlântica-Boavista de Seguros.
Metódico em tudo, José Luiz, a despeito de sua memória prodigiosa, tem o
hábito de anotar tudo que lhe pareça de interesse e, em meio à conversa, é
freqüente vê-lo retirar um cartão do bolso e escrever alguns sinais
indecifráveis, que ele depois passa para um caderno de capa preta onde anota
todos os compromissos e todos os itens de seu cotidiano. Tem horror à
burocracia e nunca deixa juntar papel em sua mesa, que por isto dispensa
gavetas. Trabalha intensamente e depressa, com o máximo de
concentração no que faz. Dá e recebe inúmeros telefonemas, através dos quais
se mantém informando de tudo que se passa na empresa, na cidade, no mundo dos
negócios, no país. Casado com Nininha (Maria do Carmo) Nabuco de
Magalhães Lins, tem quatro filhos: Ana Cecília, Maria Cristiana, José Antonio e
José Luiz. É homem de vida caseira, extremamente familiar. Fez algumas viagens
aos Estados Unidos e à Europa, mas agora prefere não sair do Rio, nem para
subir a Petrópolis, que considera superada depois da invenção do ar
refrigerado. Aliás, para evitar casa de veraneio, José Luiz tem uma casa no
Alto da Boa Vista, onde passa grande parte do ano, quando não está na sua casa
da rua Icatu. Cultivando com fidelidade velhos amigos,
José Luiz
pouco aparece em público, detesta publicidade ou divulgação de seu
nome e só comparece a festas ou reuniões de pouca gente. Sua vida social é
discreta. Almoça no escritório, quase sempre em companhia de um dos dois amigos
íntimos. Gosta do que comeu em criança, ou seja, tem preferência pela comida
mineira. Só bebe gin, com muito gelo, marca Tanqueray. Gosta de cinema. Dorme
muito pouco. Como empresário, José Luiz valoriza ao máximo a eficiência no
trabalho e é de uma pontualidade britânica. Há anos desenvolve uma campanha
para que todos os encontros se fizessem mediante hora previamente marcada, para
acabar e limitar, ao mínimo, a perda de tempo. Acompanhando de
perto toda a vida pública, José Luiz não quis até hoje exercitar as suas
qualidades de homem público, apesar das numerosas oportunidades e dos convites
insistentes que teve. Colaborou, porém, com a vida pública, através das
relações que mantém e como conselheiro prudente, objetivo e extraordinariamente atilado. Convidado várias vezes para altos cargos, só uma
vez deixou a linha de sua atuação de financista, quando aceitou a presidência
da Light, da qual se afastou. A presidência do Banerj é a primeira missão que
tem José Luiz de Magalhães Lins na vida pública e, num certo sentido, é
continuidade da sua formação profissional.
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