5. PERFIL

Humberto Braga 

Março 1992

 

 

Embora não seja um estóico, jamais se entrega a lamúrias. Mais para alarmado do que para displicente, porém se esforça em ocultar seus receios e preocupações. Nem sempre consegue disfarçar sua preocupação, mas não revela o que o preocupa. Não negligencia nada e se lembra de tudo. Se deixar de fazer algo, não terá sido por esquecimento ou descuido, e sim por omissão deliberada. Sábio desenganado, tem certo carinho ou complacência com D. Quixotes imaturos ou arrebatados, embora lamente os problemas inúteis que eles criam. Se nem sempre é generoso, jamais é cruel. Nenhuma vaidade e tremendo orgulho. E esse orgulho o faz sensibilíssimo a muitas coisas. Humildade aparente e desarmante, mas autoritarismo real. É fundamentalmente um autoritário e ama o poder. Muito ambicioso, tem horror a aparecer. Detesta a luz da ribalta, contentando-se em atuar nos bastidores, como notória eminência parda. Cultiva a própria legenda. Não quer aparecer, mas gosta que os outros saibam que ele é poderoso e influente. Tem horror ao comunismo sem nenhum horror aos comunistas individualmente. Como não cultiva o rancor, quando briga com alguém, não pensa mais nele, até por pragmatismo. Preocupado sobretudo com a própria vida e a dos seus, mas interessado em tudo, menos em futilidades sociais. Nenhum gentleman o suplanta em cortesia e na paciência de ouvir. Não sendo homem de formação universitária, tem a paixão da inteligência e uma grande atração pelos assuntos e problemas intelectuais culturais. Apreende e assimila os temas que conhece pouco, ou com os quais tem pouca familiaridade, com pasmosa facilidade. Tem sobretudo um excelente "feeling" e jamais comete gafes. É capaz de fazer o interlocutor ver ou reconhecer desagradáveis verdades ou realidades, sem utilizar palavras ásperas ou contundentes. Na sua prudência, não vê vantagens na chamada franqueza.

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