3. TRECHOS DE LIVROS

 

 

3.13 O REMADOR DE BEN-HUR

Confissões Culturais

Nelson Rodrigues

(06/09/1962)

Pág. 33

 

“...era o Zé Luís. E ria para nós. Se eu jamais o tivesse visto, concluiria, imediatamente: - “Esse camarada é um bom!”. Amigos, só acredito na bondade que ri. A virtude de cara amarrada é neurótica. Só concebo santos jucundos. Uma Joana D’Arc ou um São Francisco de Assis haviam de ser risonhos como um Frade de Walter Scott. 

E aquele novo encontro com o riso do Zé Luís fez-nos um bem imenso. Ocupamos a pequena mesa. Todavia, uma amarga desilusão nos esperava: - o meu seria escasso demais para a nossa fome. O brasileiro médio, sem Poder Econômico, tem um apetite meio obsceno, que pede mais abundância que qualidade. Eu e Otto teríamos optado por uma dessas feijoadas totais. Mas veio lá um sóbrio milanesa com um purê e mais uma salada modesta. Sim, aquele prato único não era o mata-fome que pediríamos. 

E, então, eu enquanto comia, olhava de esguelha para o Poder Econômico. Diante de nós estava todo um Brasil novo.

O Zé Luís dá uma sensação de ginasiano, de aluno do Pedro II sem uniforme. E vejam vocês: - no Império e, mesmo, na Republica Velha, o Poder era uma paisagem de velhices ilustres, mas trôpegas. As múmias dominavam. E, agora, irrompem os ginasianos por toda parte. Em vez de tomar carona de bonde, como outrora, eles fazem historia. São os zé Luís que varrem o Brasil de ponta a ponta, com largo sopro criador. 

Bom. No meio do almoço, o Zé Luís vira-se para mim e anuncia, de olho rútilo: - “Sabe quem vem aí? O Garrincha!”. Até o Otto, que nunca viu uma bola e jamais entrou no Maracanã, até o Otto, repito, tem veneração pelo Mané. Eu disse “no meio do almoço”. Já estávamos na sobremesa, aliás bem medíocre. O Zé Luís insistia: - “O Garrincha está chegando. Espera o Garrincha!”. Eu compreendi o élan do nosso Poder Econômico. E, de fato, só o mau-caráter é que não dá uma enorme importância nacional ao Mané. Hoje Garrincha é tão relíquia da pátria como um quepe, como uma espada da Guerra do Paraguai. 

Eu e o Otto ficamos. Por fim, apareceu Garrincha. Foi um quadro de Pedro Américo o aperto de mão do Zé Luís e de Garrincha. Estavam lá, também, o Zagalo e o Sandro Moreyra. O Zé Luís é o banqueiro de todos. E o Sandro me puxa para um canto e sussurra: - “O Garrincha gostou pra burro do ..."

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