“...era o Zé Luís. E ria para nós. Se eu jamais o
tivesse visto, concluiria, imediatamente: - “Esse camarada é um bom!”. Amigos,
só acredito na bondade que ri. A virtude de cara amarrada é neurótica. Só
concebo santos jucundos. Uma Joana D’Arc ou um São Francisco de Assis haviam de
ser risonhos como um Frade de Walter Scott.
E aquele novo encontro com o riso do Zé Luís fez-nos
um bem imenso. Ocupamos a pequena mesa. Todavia, uma amarga desilusão nos
esperava: - o meu seria escasso demais para a nossa fome. O brasileiro médio,
sem Poder Econômico, tem um apetite meio obsceno, que pede mais abundância que
qualidade. Eu e Otto teríamos optado por uma dessas feijoadas totais. Mas veio
lá um sóbrio milanesa com um purê e mais uma salada modesta. Sim, aquele prato
único não era o mata-fome que pediríamos.
E, então, eu enquanto comia, olhava de esguelha para o
Poder Econômico. Diante de nós estava todo um Brasil novo.
O Zé Luís dá uma sensação de ginasiano, de aluno do
Pedro II sem uniforme. E vejam vocês: - no Império e, mesmo, na Republica Velha,
o Poder era uma paisagem de velhices ilustres, mas trôpegas. As múmias
dominavam. E, agora, irrompem os ginasianos por toda parte. Em vez de tomar
carona de bonde, como outrora, eles fazem historia. São os zé Luís que
varrem o Brasil de ponta a ponta, com largo sopro criador.
Bom. No meio do almoço, o Zé Luís vira-se para mim e
anuncia, de olho rútilo: - “Sabe quem vem aí? O Garrincha!”. Até o Otto, que
nunca viu uma bola e jamais entrou no Maracanã, até o Otto, repito, tem
veneração pelo Mané. Eu disse “no meio do almoço”. Já estávamos na sobremesa,
aliás bem medíocre. O Zé Luís insistia: - “O Garrincha está chegando.
Espera o Garrincha!”. Eu compreendi o élan do nosso Poder Econômico. E,
de fato, só o mau-caráter é que não dá uma enorme importância nacional ao Mané.
Hoje Garrincha é tão relíquia da pátria como um quepe, como uma espada da Guerra
do Paraguai.
Eu e o Otto ficamos. Por fim, apareceu Garrincha. Foi um quadro de Pedro
Américo o aperto de mão do Zé Luís e de Garrincha. Estavam lá, também, o
Zagalo e o Sandro Moreyra. O Zé Luís é o banqueiro de todos. E o Sandro
me puxa para um canto e sussurra: - “O Garrincha gostou pra burro do Zé
..."
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