3. TRECHOS DE LIVROS

 

 

3.13 O REMADOR DE BEN-HUR

Confissões Culturais

Nelson Rodrigues

(06/09/1962)

Pág. 32

 

"Anteontem, pela manhã, me chamam ao telefone. Era o Otto Lara Resende (sempre este homem fatal!). Ele pergunta:

-“Vamos almoçar com o Poder Econômico?”. Fui sucinto: - “Topo!”. O assim chamado “Poder Econômico” era o Zé Luís, do Banco Nacional de Minas Gerais. Eu conheço de três ou quatro apertos de mão. Mas o bom do Zé Luís está no riso e repito: - é o riso que o promove, que o define, que o consagra. 

O sujeito que o vê rindo confia nele, para sempre. Amigos, se o brasileiro é a flor de três raças tristes então o Zé Luís é uma escandalosa, uma ululante exceção. Mas, na hora combinada, lá fomos, eu e o Otto, para o almoço. Para nós (somos dois Raskolnikovs de galinheiro) qualquer banco é um sombrio antro de milhões. Somos uns ressentidos contra o dinheiro. Mas ninguém mais terno, ninguém mais passarinho que o Zé Luís

Entramos. Elevador. O Otto, de passagem, era um perdulário do cumprimento. Esbanjava cordialidade. Nunca um só cumprimentou tantos. Chegamos ao andar do Zé Luís. O Otto ia repetindo como o corvo de Edgar Allan Poe: - “ O Poder Econômico! O Poder Econômico!”. Mas antes de chegarmos até ele, tivemos de atravessar uma sala, mais outra, ainda outra, e uma quarta, uma quinta, uma sexta. E, por fim instalou-se em mim uma obsessão de portas, de mesas, de tapetes e de espelhos. 

Eis a verdade: - aquele almoço com o Poder Econômico era, em mim e no Otto, uma secreta, uma envergonhada, culposa vaidade. Entramos numa vigésima sala. E, de repente, abre-se uma porta e aparece alguém. Era o Poder Econômico, ..."

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