"...
Antes
que a história se repetisse, convenceram Garrincha a recolher todo o dinheiro
que tivesse em casa para aplicá-lo em ações sob a orientação de Zé
Luiz.
Garrincha topou. No dia combinado, acompanhado por dois funcionários do Banco
Nacional, foi a Pau Grande pegar o que achasse.
Encontraram
dinheiro em gavetas, fruteiras, enfiado em velhos exemplares de Mindinho
e Reis do Faroeste, debaixo de outros colchões e até caído por trás
do fogão. Havia cruzeiros, libras, francos, liras, pesetas, coroas suecas,
florins holandeses, moedas de toda a parte onde o Botafogo jogara nos últimos
anos, além de soles e bolivares que já tinham deixado de valer. Havia também
inúmeros cheques jamais descontados e muitos, muitos maços de notas de dólar.
Garrincha
meteu todo esse dinheiro numa caixa de sapatos, amarro-a com barbante e foi com
os funcionários levá-lo ao banco na avenida Rio Branco com a rua do Ouvidor,
onde ficava Zé Luiz. Ao adentrar o recinto parou o expediente –
caixas, balconistas e clientes ficaram extáticos ao vê-lo ao vivo. E ninguém
sabia o que ele trazia na caixa de sapatos.
Sua
saudação ao ser apresentado a Zé Luiz foi a mais Garrincha possível:
“Olha
aí, gente fina. Erva viva!”
Zé
Luiz tinha trinta anos. Era sobrinho do governador mineiro Magalhães Pinto
e o mais jovem banqueiro brasileiro. Era também o banqueiro mais popular entre
os jornalistas, cineastas, teatrólogos e outros profissionais cronicamente
duros, a quem emprestava dinheiro com um sorriso nos lábios. Nelson Rodrigues,
Otto Lara Resende e muitos outros eram seus amigos pessoais. Mas sua carreira de
banqueiro do futebol brasileiro estava apenas começando – e ele nem ao menos
era Botafogo. Era América.
Feitas
as contas e conversões, descobriu-se que, entre salários, bichos, prêmios,
doações, cachês e outro dinheiros intocados, Garrincha tinha perto de 20 mil
dólares – cerca de 200 mil dólares de 1995.
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