3. TRECHOS DE LIVROS

 

 

3.7 ESTRELA SOLITÁRIA 

Um brasileiro chamado GARRINCHA

Ruy Castro 

Pág. 270 

 

"...

Antes que a história se repetisse, convenceram Garrincha a recolher todo o dinheiro que tivesse em casa para aplicá-lo em ações sob a orientação de Zé Luiz. Garrincha topou. No dia combinado, acompanhado por dois funcionários do Banco Nacional, foi a Pau Grande pegar o que achasse.

Encontraram dinheiro em gavetas, fruteiras, enfiado em velhos exemplares de Mindinho e Reis do Faroeste, debaixo de outros colchões e até caído por trás do fogão. Havia cruzeiros, libras, francos, liras, pesetas, coroas suecas, florins holandeses, moedas de toda a parte onde o Botafogo jogara nos últimos anos, além de soles e bolivares que já tinham deixado de valer. Havia também inúmeros cheques jamais descontados e muitos, muitos maços de notas de dólar.

Garrincha meteu todo esse dinheiro numa caixa de sapatos, amarro-a com barbante e foi com os funcionários levá-lo ao banco na avenida Rio Branco com a rua do Ouvidor, onde ficava Zé Luiz. Ao adentrar o recinto parou o expediente – caixas, balconistas e clientes ficaram extáticos ao vê-lo ao vivo. E ninguém sabia o que ele trazia na caixa de sapatos.

Sua saudação ao ser apresentado a Zé Luiz foi a mais Garrincha possível:

“Olha aí, gente fina. Erva viva!”

Zé Luiz tinha trinta anos. Era sobrinho do governador mineiro Magalhães Pinto e o mais jovem banqueiro brasileiro. Era também o banqueiro mais popular entre os jornalistas, cineastas, teatrólogos e outros profissionais cronicamente duros, a quem emprestava dinheiro com um sorriso nos lábios. Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende e muitos outros eram seus amigos pessoais. Mas sua carreira de banqueiro do futebol brasileiro estava apenas começando – e ele nem ao menos era Botafogo. Era América.

Feitas as contas e conversões, descobriu-se que, entre salários, bichos, prêmios, doações, cachês e outro dinheiros intocados, Garrincha tinha perto de 20 mil dólares – cerca de 200 mil dólares de 1995.

..."

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