"...
mal. O fiel da discussão era Mário Filho: quando os ânimos esquentavam, ele
fazia um gesto como quem pede a palavra, levava o “Ouro de Cuba” à boca e
os irmãos ficavam mudos e paralisados, esperando a baforada que antecederia a
palavra mais sábia e esclarecedora. Mário Filho usava o charuto como uma arma
de oratória. E, quando falava, sempre de maneira equilibrada, os outros
sossegavam.
Mas
Nelsinho não estava sossegado. Era quase impossível ser jovem sem se sentir
lesado naqueles anos pós-1964 – toda a sua geração fora excluída da vida
política nacional, como se faz como um siso incômodo. No caso, muitos sisos. Não
que ele quisesse envolver-se em política, apenas não queria ser proibido de se
envolver. E, entre o pessoal das ciências exatas, a Faculdade de Engenharia era
das mais inquietas do movimento estudantil. Em 1968, no último ano do curso,
ele participara de algumas passeatas e fora dos poucos a não se surpreender com
a “Confissão” de seu pai sobre Wladimir Palmeira.
“Wladimir
é autêntico, não está brincando”, dizia-lhe Nelson.
Em
1969, com os todos os canais políticos já fechados pelo AI-5, os estudantes
desmantelados e um cheiro de pólvora no ar, Nelsinho passou de março a
setembro fora do Brasil. Viajara com sua turma da Engenharia para um longo périplo
de aperfeiçoamento técnico na Europa. Estivera em 21 países, entre os quais vários
do Leste europeu: URSS, Polônia, Tcheco-Eslováquia e Hungria. De lá, ouvia
notícias vagas do Brasil: Costa e Silva sofrera uma trombose, fora
substituído por uma junta militar, o embaixador americano havia sido seqüestrado,
o novo presidente seria um general chamado Médici. Voltou poucos dias antes da
posse de Médici. O pau estava comendo e já havia diversos grupos clandestinos
atuando na luta armada contra o regime. Aos 24 anos, Nelsinho sentia-se
incomodado por “ser tão convicto e não estar dentro da luta”. Disse isso a
Nelson, que apenas aconselhou-o a ficar longe “daquela loucura.”
“Guerrilha
urbana não é batalha de confete”, brincou Nelson.
Nelsinho
não era o único a estar voltando para a casa de sua mãe, que agora morava na
Tijuca. Joffre também estava de volta, depois de dois anos nos Estados Unidos:
pegara dinheiro com José Luiz de Magalhães Lins e abrira um restaurante
ali perto, na rua Uruguai, chamado “Cartum”. Em pouco tempo Joffre observou
uma movimentação diferente no apartamento – eram muitos os amigos
“estranhos” de Nelsinho que entravam e saíam. Um ou dois já não saíam,
pareciam estar ficando de vez. Joffre farejou a formação de um “aparelho”
e se queixou com Nelsinho. Tiveram uma discussão, Joffre queria que ele
mandasse todo mundo embora. Nelsinho respondeu que não faria isso, Joffre ameaçou:
“Se
não sumirem, denuncio todo mundo.”
Nelsinho
olhou-o nos olhos:
“Se
fizer isso, dou-lhe um tiro na boca.”
Mas
não houve denúncia, nem tiro. Nelsinho saiu de casa e alugou um apartamento no
subúrbio de Lins de Vasconcelos. Sua mãe comprou-lhe um sofá
..."
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