3. TRECHOS DE LIVROS

 

 

3.9 O ANJO PORNOGRÁFICO 

A vida de Nelson Rodrigues

Ruy Castro 

Pág. 339 

   

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Mas não o produziu sozinho. Parte do dinheiro foi levantada por Joffre, com o aval de Nelson, junto ao Banco Nacional de José Luiz de Magalhães Lins. O próprio Jece dirigiu “Bonitinha, mas ordinária” em parceria com J. P. de Carvalho, e deixou que este assinasse sozinho. O nome de Otto Lara Resende também foi eliminado, com que por encanto, do título. Mas não da história e nem dos diálogos. E, como o filme foi levado no Brasil inteiro, Otto, por onde quer que passasse, tinha de mostrar a carteira de identidade para provar que existia, que não era apenas um personagem da imaginação de Nelson Rodrigues.

“Bonitinha, mas ordinária“ no cinema foi visto por dois milhões de espectadores – o que permite calcular as multidões que abordaram Otto na rua, o apalparam e farejaram. O filme rendeu muito dinheiro, mas não para Joffre. Desta vez foi ele que vendeu sua parte para Jece Valadão, pagou o banco e foi para a Itália estudar cinema. Voltou em 1964, disposto a tornar-se o Franco Cristaldi ou o Carlo Ponti brasileiro – o produtor que iria fazer as pazes do cinema “de arte” com a bilheteria. Sua primeira idéia era filmar “Senhora dos afogados” com direção de Glauber Rocha. Grande idéia. Levantou o dinheiro com José Luiz Magalhães Lins e foi à luta.

Glauber, ainda fumegante pelo explosivo sucesso de “Deus e o diabo na terra do sol”, aceitou na hora. Assinou o contrato e, bem ao seu estilo, só depois é que foi ler a peça. E, ao ler, sentiu que não era o material para ele.

“Joffre, me perdoe, mas me libere”, disse Glauber. “Vai dar um choque de autores. Seu pai é autor e eu também sou. Não dará certo.”

Perdida a chance de se fazer o melhor filme brasileiro de todos os tempos, Joffre viu-se com uma idéia na cabeça e o dinheiro na mão, mas sem um diretor para realizá-la. "Pegue Leon  Hirszman ou Eduardo Coutinho”, soprou-lhe Luís Carlos Barreto. Num encontro casual com Joffre no “Far-West”, um botequim defronte à TV Rio, Fernando Tôrres e Sérgio Britto falaram-lhe do seu desejo de fazer Nelson no cinema. Só que a peça que preferiam era “A falecida”. E então acertou-se tudo. Leon Hirszman seria o diretor, Eduardo Coutinho o roteirista e Fernanda Montenegro – quem mais? – seria Zulmira, a mulher que não tem onde cair morta, mas que sonha com um caixão de luxo.

O filme ganhou o inevitável prêmio em festival, mas foi um fiasco comercial de dimensões cataclísmicas. E olhe que Fernanda Montenegro realizou em “A falecida” aquela que ainda hoje é considerada a maior interpretação feminina do cinema brasileiro. Seu desempenho enganou até os figurantes na seqüência do velório, rodada na casa de uma senhora portuguesa no Estácio.

Chico de Assis, do “Teatro de Arena”, havia preparado os vizinhos da portuguesa: convenceu-os de que iriam assistir a um velório de verdade, com uma morta de carne e osso no caixão, e conclamou todo mundo a ir ver a defunta. O rosto de Fernanda Montenegro ainda não era tão conhecido na Zona Norte do Rio. Durante horas, dezenas de pessoas desfilaram diante do caixão em que ela se deitava, imóvel, de olhos fechados, fazendo força para não respirar entre aqueles círios, cruzes e flores. Ninguém parecia ver nada de anormal na  pre-

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