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Os jornais e revistas estão
inundados de denúncia de lobistas da pior espécie, povo sem a menor qualificação
e sofisticação. Coincidiu com minha ida ao Rio de Janeiro, para pegar
depoimentos de velhos moradores da cidade para o livro que estou escrevendo.
Mergulhei no Rio fascinante dos anos 40 e 50,
conversei com senhores de mais de 70, alguns chegando aos 90. E tive notícias do
Lobisomem, o maior dos lobistas, o homem que foi conselheiro de praticamente
todos os presidentes desde JK, com a possível exceção de Ernesto Geisel e Itamar
Franco.
Já deve ter passado dos 80 anos. Era discípulo de
Augusto Frederico Schmidt, o poeta-empresário-advogado que foi a maior
influência no governo Juscelino Kubitschek.
O Lobisomem aprendeu tudo o que podia com o
mestre.
Quando Jango assumiu, procurou o Sombra –outro
personagem histórico do Rio– e manifestou desconfiança em relação ao Lobisomem.
Achava que representava o imperialismo internacional, por causa de um emprego
que tinha como diretor da Manesmann. Sombra tranqüilizou-o, explicou-lhe que o
Lobisomem era um grande filósofo, com ligações estreitas com a Igreja Católica.
Despreparadíssimo, encantado com a erudição
alheia, Jango chamou o Lobisomem para conversar. Nunca ninguém resistiu ao
encantos do Lobisomem, nem Roberto Marinho, que, durante muito tempo, tinha
reuniões diárias e assinou inúmeros editoriais de primeira página em “O Globo”,
escritos por ele. Jango tornou-se refém intelectual do filósofo. Não dava um
passo sem consultá-lo Aliás, deu um: o desastroso discurso na Central do Brasil,
que precipitou sua queda.
Sombra coordenou a campanha do presidencialismo,
no plebiscito que devolveu a Jango os poderes de presidente. Um dia estava em
sua casa, quando o Lobisomem telefonou-lhe incumbindo-o de uma missão. “Queria
que você fosse a Paris assinar um acordo do Brasil com os países-membros da
OCDE.” O Sombra pulou de lado. Era monoglota, não tinha a menor idéia do que se
tratava esse acordo. Também monoglota, o Lobisomem tranqüilizou-o: “Não será
preciso fazer nada. Já acertei tudo. Só vai precisar assinar e colocar seu nome
na história”.
Lobisomem sequer andava de avião. Nunca andou, aliás. Quando precisava se
locomover para Brasília, ia de táxi. Ia mensalmente para conversar com Fernando
Henrique Cardoso. Quando queria falar com ele, José Dirceu ia ao Rio. Acontece
que, de Schmidt, Lobisomem tinha herdado as relações com o Colégio Santo
Ignácio, um grupo de católicos influentes, espécie de maçonaria da igreja. Por
caminhos da fé, tornou-se muito amigo do confessor de Charles De Gaulle, um
dominicano que tinha relações com o Brasil. Por meio do confessor, conseguiu o
acordo com a OCDE.
Nem sei se o Sombra aceitou o convite e colocou
seu nome na história do mundo. Na do Brasil colocou lá nos fins dos anos 60,
quando garantiu a Roberto Marinho a TV Globo. Visionário, o empresário havia
obtido um empréstimo do grupo Time-Life, além de um time de executivos de
primeira. Se ficasse inadimplente, o grupo tomaria a TV. Coube ao Sombra
garantir um empréstimo de última hora, que permitiu a Marinho pagar o
financiamento.
Depois, veio 1964. Carlos Lacerda desceu dos céus
como um anjo vingador, jogando sua ira desvairada contra o Lobisomem, que
terminou preso. Na cadeia, conheceu militares linhas-duras. De linha dura em
linha dura, chegou ao general Emílio Garrastazu Médici. Tiro e queda. Semanas
depois, Médici faria um discurso histórico falando da importância do social e
coisa e tal, totalmente escrito pelo Lobisomem.
Depois, Lobisomem continuou conversando com o
mundo e com todos os presidentes. Armou alguns negócios aqui, muita articulação
política ali. Governos foram mudando e ele sempre ali, sendo ouvido. Continua
freqüentando o mesmo restaurante de 50 anos atrás, no centro do Rio. Mas anda
numa pindaíba danada. Os lobistas daqueles tempos tinham tanto prazer em
reconstruir o país que alguns deles nem sequer tinham tempo para pensar em
dinheiro para si.
OBS: * O “Sombra” é José Luiz de Magalhães Lins.
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