4. CRÔNICAS E ARTIGOS

 

 

4.1 O GLOBO 

Nelson Rodrigues 

1963 

 

 

“3 – Todavia, enquanto não embarca, está existindo mais do que nunca. Todos os dias, há sempre quem lhe ofereça um jantar, um almôço de despedida. Jamais um sujeito foi tão despedido. E, sexta-feira, o Zé Luís Magalhães Lins recebeu o Otto lá na casa do Humaitá. Ora, o Zé Luís tem a mais doce casa do Brasil e o jantar ao Otto foi uma dessas coisas inesquecíveis.”

“4 - ... a perspectiva do exílio fez do Otto outro ser. Na casa do Zé Luís, ele era um úmido, um lírico, um comovido. Das nove da noite às quatro da manhã, andou sempre a um milímetro do soluço. E vamos e venhamos: - na casa do Zé Luís, quase o carregamos na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado.”

“5 - ... Por exemplo: - o Zé Luís, o citadíssimo Zé Luís, do Banco Nacional de Minas Gerais. Outro dia, o Otto me chamava à atenção para a palidez do jovem banqueiro. Exato, exato! É pálido como um Werther. Ou melhor: - tem a cor daqueles santos da “Thais” anatoleana, que iam para o mato comer gafanhotos. E quando faltavam os gafanhotos, eles mordiam o bico das próprias sandálias. Era lindo. Pois bem: - o Zé Luís tem a palidez intensa, as mãos diáfanas do martírio.”

"6 – Mas o que eu queria dizer é que êle devolve ao dinheiro a pureza antiga, a inocência perdida. O dinheiro se torna imaculado, e terno, e misericordioso. Por exemplo: - Zé Luís anda emprestando ao teatro brasileiro, ao pobre, ao franciscano teatro brasileiro. Imaginem o cínico milagre. O Zé Luís chegando e dizendo para companhias moribundas, já com a rigidez cadavérica: - “Levanta!” E a companhia levanta mesmo e sai por aí, como uma Lázara. Por isso, eu já não o chamo mais de “Poder Econômico”. Por que não dizer, em vez disso, o “Amor Econômico” ou a “Ternura Econômica?”

“8 - ....No caso de Zé Luís, o que se prova é que o dinheiro é um mísero detalhe. O que vale é a misericórdia, o amor e o tremendo calor humano. ..”

“9 - ....Um povo está potencializado quando começam a aparecer, aqui e ali, resistências contra o Poder Econômico . Ou, como no caso de Zé Luís, quando o Poder Econômico se humaniza e tem esse toque de Graça, de Amor.”