4. CRÔNICAS E ARTIGOS

 
 

4.1 O GLOBO 

Nelson Rodrigues 

10 de abril de 1963 

 

“3 - .....Só recentemente é que, por acaso, conheci uns dois ou três banqueiros. Um dêles foi o Zé Luís, do Banco Nacional de Minas Gerais. Diz o Otto Lara Resende que o mineiro só é solidário no Câncer. O Autran Dourado vais mais longe e afirma: - “O mineiro só é solidário na exumação.” Pois bem. O mineiro Zé Luís já é solidário na brotoeja”.

“4 - Ainda outro dia, estive eu, com o Otto, no banco. Íamos almoçar com o Zé Luís, que eu e o colega chamam de “ o Poder Econômico”. Passamos lá uma hora e quebrados. Manda a verdade que se diga: - o almoço estava péssimo. Durante todo o tempo, o Zé Luís martelava numa tecla só: - “O que eu posso fazer pelo Grande Otelo?”...

“5 – Ora, o Zé Luís está a mil léguas da usuraria do “Crime e Castigo”. Se Raskolnikov o conhecesse teria pendurado o machado. Em vez de matar, havia de carregar o Zé Luís no colo. E o Dostoievski não teria escrito nenhum “Crime e Castigo”. Só imagino o Raskolnikov com um papagaio no Zé Luís ou, lá comigo e com o Otto, filando um almoço execrável.”