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“É o seguinte: nós estamos pedindo para as pessoas falarem
de onde todo mundo veio para parar lá, e o que fez depois. A proposta é fazer um
mini-documentário sobre cada entrevistado. A gente queria fazer um documentário
sobre algo que a gente goste. A gente não queria falar apenas do filme. Usar o
filme...
”Vamos lá. Conheci o Joaquim, primeiro foi pelo Garrincha, Alegria do Povo.
Foi uma história até engraçada, por que eu não conhecia o Joaquim, nunca nem
tinha ouvido falar no Joaquim. Aí eu tava na casa do Zé Luís Magalhães,
que era banqueiro, casado com uma prima dele, a Nininha Nabuco, e o Zé Luís
falou pra mim: “Olha, esse filme do Garrincha...” ele estava financiando
o filme pelo banco, e falou “eu tenho um primo que é cineasta e acabou de
chegar da Europa, fez um curso de cinema verdade, conversa com ele, quem sabe...”,
e tal. Pensei “Primo de banqueiro, o que será?”... Mas eu disse: "Manda
ele me telefonar", e ele me telefonou. Aí eu saquei que o Joaquim era um
cara que exatamente chegava na hora daquele filme, o Garrincha. Ele tinha
feito um curso de cinema-verdade na França, com François Reicheinbach, ele tava
vindo na onda do Cinema Vérité . Então chamei pra gente fazer o
Garrincha, alegria do povo juntos, era um projeto meu com o Armando
Nogueira, e a gente estava ainda pensando quem ia dirigir, é um documentário...
Ai o Joaquim chegou com essa apresentação do José Luís Magalhães Lins, e
a gente percebeu que ele era o homem que a gente realmente precisava para fazer o
filme. Ai a gente formou a equipe, Mário Carneiro, David Neves e tal... E o
cinema verdade exigia som direto. E o som direto não existia no Brasil na época.
No Brasil, não tinha equipamento para o som direto, Nagra ou Perfectone, os
gravadores leves... Aí na primeira filmagem, em Pau Grande, nós transportamos
praticamente um estúdio de som, máquinas enormes pra fazer a colheita do som
direto. E deu tudo certo, foi ótimo, foi o primeiro filme do cinema brasileiro
nos anos 60 que foi na técnica do cinema-verdade. E aí fizemos o Garrincha...
com grande prazer, e tal, o filme tomou um aspecto muito moderno, porque não
ficou um documentário com narrativas, as narrações de locutor eram intervenções
muito pequenas, fugindo daqueles padrões todos... Inclusive alterou toda a
maneira de filmar futebol. Todo mundo fala, mas quem revolucionou a maneira de
se filmar futebol foi o Joaquim com o Garrincha, Alegria do povo.”
Você começou a trabalhar em cinema com Nelson Pereira em “Vidas Secas”
...
“... E depois Glauber ficou muito meu amigo, vinha ao Rio e ia lá pra casa, e aí
um dia, ele apareceu com um negócio do Roberto Farias. “ Tem aí um diretor, o
Roberto Farias que vai fazer um filme o ‘Assalto ao Trem Pagador’, e tal, e você
deveria escrever o roteiro com o Roberto Farias...”. Mas eu nunca fiz um
roteiro de cinema!”, “ Não, e tal, e você tem que fazer, não tem segredo!...”
. Aí eu fui fazer o roteiro com o Roberto Farias. E então depois resolvi me
interessar por produção, como é que produz, como faz... E o Zé Luis,
parente do Joaquim Pedro, emprestava dinheiro pelo banco para fazer o filme.”
Entrevista concedida a Clara Linhart, Camila Maroja e Daniel Caetano.
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